segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mãos ao alto!

Eu acho que a maioria das pessoas vai dizer que foi uma grande ironia, e foi. Um dia depois de eu ter feito  - com todo o meu amor e admiração - meu post sobre São Paulo, eu fui assaltada.  Em São Paulo!

Saí do trabalho no sábado eram quase sete horas da noite, logo depois da Princesa Isabel ter assinado a Lei Áurea e libertado a mim a aos meus colegas. Decidi ir à pé encontrar meu Guardian Angel Junior, com quem eu moro, para então irmos juntos para casa. O Junior já dissertou durante anos acerca da necessidade de só andar com as cópias dos documentos na bolsa, de jamais falar no celular em ruas desertas quando eu estou sozinha, de não parecer uma paquita estrangeira quando passo por lugares mais críticos – para não dizer perigosos -, de sempre fechar a bolsa (é, eu esqueço deste detalhe, por mais útil que ele pareça ser) e muitas outras coisas do gênero. Em minha defesa, garanto a vocês que sábado eu não parecia uma paquita estrangeira, minhas olheiras estavam tão profundas que, se eu fosse o assaltante, eu teria pensado duas vezes antes de me abordar. Mas, evidentemente, enquanto eu estava passando por uma rua deserta, próxima a uma estação de metrô, eu estava com a bolsa aberta (e com todos os documentos nela), ouvindo gnomos tocando violino e sem fazer ideia das coisas que aconteciam ao meu redor. Ou seja, se o assaltante estava me seguindo, ele deve ter pensado: ou ela é autista, ou ela é minha colega de profissão.

Meu celular tocou e era uma ligação... interessante. Naquele momento esqueci todos os conselhos super importantes do Junior e atendi o celular, com uma expressão super animada de quem faz planos para um sábado promissor. Eu não sei se a minha capacidade de observação foi prejudicada na hora, porque eu não lembro – mesmo – de ter visto ou percebido alguém se aproximando de mim. Só sei que, mal eu disse um "alô" bem mixuruca que passava a falsa impressão do “nossa, eu não esperava sua ligação” e eu fui abordada por um homem que, sem dúvidas, tinha tanta olheira quanto eu. Aliás, pessoal, máscara de pepino faz milagres nessas horas, ok?

Naquele instante eu não me dei conta de que estava sendo assaltada. Infelizmente eu tenho esse lado paquita ingênua que acredita que jamais vai ser atingida pelas mazelas do mundo, como se Deus liberasse por dia uns dez guias espirituais para cuidar de mim na rua, na chuva e na fazenda. Então quando ele me olhou (aliás, a barba também merecia um upgrade, não só a região dos olhos, sem contar que uma pinça naquela monocelha também iria operar milagres), enquanto colocava a sua mão no meu braço para me segurar (ah, um banho sempre ajuda!) e disse: - Quieta, me passa o teu celular, rápido! - eu demorei alguns 5 segundos (e em um assalto 5 segundos podem ser determinantes) para entender que ele não queria me dar Oi, ele queria me roubar! Eu, contrariando todas as leis de um assalto, usei os 1,69 cm de coragem que existem em mim, olhei para ele pausadamente (quem sabe minhas olheiras também causassem efeito) e disse:

- Não.

E ele (no mínimo surpreso, pensando: mas olha que paquita cara de pau!) respondeu:

- Me dá aqui esse celular AGORA! Vamo, vamo, vamo! (Ai, odeio gente que fala errado... se bem que, se ele me dissesse: -Vamos, vamos, vamos!" eu teria enganchado no braço do cara e dito: -Sim, aonde?)

E eu:

- O meu celular não.

Então eu olhei para baixo e vi que talvez aquilo não fosse Pegadinha do Malandro, porque ele tinha uma faca. E que faca mais suja! Falta de consideração assaltar os outros e nem limpar o objeto de trabalho. Fato que se ele me cortasse eu iria pegar tétano e sabe-se lá mais o que. Aí olhei para o meu celular novinho, lindinho, branquinho, cheio de contatinhos, com todas as músicas da Adele que eu demorei 20 anos para aprender a passar e pensei: espero que um dia você me perdoe. Soltei a minha mão (que prendia o celular como se ele fosse a Pedra Filosofal do Harry Potter), ele o pegou e saiu correndo, levando com ele todos os meus programas pra aquela noite.

Foi neste momento e só neste momento - aliás, como às vezes eu demoro para interpretar certas coisas - que eu me dei conta que aquilo tinha sido um assalto. Aí o nervosismo chegou e eu comecei a rir descontroladamente. E a tremer descontroladamente. Entrei em um boteco na próxima esquina, pedi uma dose de 51 (tá, esse parte é mentira, mas pensando melhor teria sido uma boa) e fiquei rindo - entendi porque talvez o Junior me chame de Paquita - ao mesmo tempo que contava, entre sílabas cortadas e tremidas, que havia sido assaltada, e pedi para usar o telefone. E eles disseram: Assaltada? (No mínimo olharam para as minhas olheiras e pensaram: -Aham, Cláudia, senta lá), mas me emprestaram o telefone.

O resto do sábado envolveu bloquear meu número, recuperar meu número, flertar com o funcionário da TIM, furar fila, comprar aparelho novo, ouvir vários sermões do Junior e agradecer, muito, por ter alguém tão legal para poder contar nessas horas. Três horas e merecidas ribs on the barbie, Frech Fries e onion rings (Outback I love you) depois, estávamos em casa rindo dos acontecimentos, afinal, ele poderia ter levado a minha bolsa com a minha carteira e todos os meus documentos e cartões. Então não podemos dizer que eu não tive sorte, porque eu tive. Terceira temporada de Friends no DVD, brownie no forno e chá de boldo para evitar a congestão, meu sábado terminou de uma forma tão incrível quanto como se o assaltante não tivesse me escolhido entre todas as paquitas de SP e feito com que eu mudasse meus planos.

P.S. Agradecimento super especial à Gabriele Gransotto, primeira pessoa que soube do ocorrido e que, mesmo dois estados longe de mim, já agilizou soluções para o caso. Te amo, maridinha.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

In the city of blinding lights

As noites são, em especial, um espetáculo para mim. Tenho uma espécie de tara – no melhor sentido da palavra, se é que existe algum – por luzes e pelos contrastes que elas compõem. Da sacada do meu apartamento ou do agito da Faria Lima às 19h, as luzes de São Paulo são tão intensas e tão sequenciais que eu acredito fielmente que nunca vou me cansar disso, ou me cansar daqui.

Ontem, enquanto eu voltava para casa depois do trabalho, a demora e o engarrafamento não me incomodaram, e eu tive a genuína impressão de que todas as pessoas nos carros ao meu redor se sentiam da mesma forma. O clima extremamente agradável e a lua cheia – que parece ter sido feita sob medida para essa cidade - estavam na mais absoluta consonância com a trilha sonora – Adele, Adele, Adele! – e foi aí então que eu decidi que o meu primeiro post seria sobre São Paulo. Nada mais justo do que homenagear o lugar que da noite para o dia se tornou o novo amor da minha vida, após uma sucessão de acontecimentos muito turbulentos que, felizmente, me fizeram mudar para a melhor e para o melhor.

Já me disseram que com São Paulo não existe meio termo. Ou você se apaixona no instante em que pisa aqui pela primeira vez ou você simplesmente não gosta da cidade e nunca vai gostar. Como vocês já devem imaginar, me encaixo no primeiro caso. Eu já estive aqui em outras ocasiões, mas em excursões escolares de quando você tinha 14 anos e não sabia diferenciar Pinacoteca de Museu Ipiranga, Van Gogh de Monet, vinho de keep cooler, você não consegue captar de fato a essência de cada lugar. Muito menos quando você vem para tirar seu visto americano no consulado mais lotado do país, morrendo de medo que te achem parecida com uma das 87 esposas do Osama Bin Laden e neguem a sua solicitação. Foi apenas em minha última e recente viagem a SP que eu fui definitivamente hipnotizada pela cidade brasileira das blinding lights.

Apesar de ser jornalista e de conhecer a Teoria das Representações Sociais – graças a um TCC que rendeu dores de cabeça a todo o Corpo Docente da universidade onde me formei -, eu estava muito habituada com a ideia de que SP era, sobretudo, o caos em tantos segmentos da vida em sociedade que seria impossível realmente querer se mudar para cá. Como a maioria das notícias se pauta na violência, na poluição e no trânsito caótico, eu me surpreendi muito com a sensação que me invadiu quando, em um final de tarde, eu desci do metrô no terminal Consolação, na Av. Paulista. Eu olhei para aqueles prédios tão diferentes e tão iguais entre si, iluminados sobretudo pela luz da lua, e a cena era tão encantadora que durante um bom tempo eu sequer me dei em conta que daqui nós não podemos ver as estrelas. Aquelas imagens foram, para mim, uma sequencia quase irreal dos instantes decisivos de Henri Cartier Bresson.

Para mentes inquietas, SP é um estímulo que não termina. A cada esquina que você vira, cada rua que você descobre, cada café que você entra, existe alguma coisa interessante de se conhecer. As pessoas aqui são extremamente solícitas e educadas, mesmo quando a pressa impede que a conversa se alongue. Você pode andar de carro durante horas a fio e dificilmente passa duas vezes no mesmo lugar, e quando passa, parece que as coisas já estão um pouco diferentes. Existe uma simetria assimétrica em SP, uma harmonia desarmônica, um conjunto tão grande de contrastes e paradoxos que fazem daqui um lugar único e, para mim, muito especial. Evidentemente que talvez eu me sinta dessa forma porque, para mim, estar aqui representa uma ruptura em muitos aspectos e eu precisava disso em todos esses aspectos. Mas o fato é que me mudar para essa cidade acrescentou algo em mim que eu não tinha, em categorias onde eu já me considerava completa. Por isso, Dear São Paulo, estou aqui para dizer, sem analogias ou metáforas vagas, que eu amo você.