terça-feira, 9 de agosto de 2011

"Sou foda, a resposta": uma análise

Na academia eu só faço esteira e bicicleta, porque meu projeto de vida é o mesmo desde 1986: emagrecer. Não quero definir nada não, nem aumentar massa magra, nem isso, nem aquilo. Quero poder comer carboidratos de rápida ou lenta absorção sem sentir que, quando me olho espelho, eu estou na verdade diante de um oficial da Igreja Católica durante a Inquisição. Falando nisso, imagine se comer bastante fosse, além de pecado, uma heresia! Fato que nem se eu comprasse todas as indulgências disponíveis no Mercado Livre e no Ebay eu iria conseguir um lugar no céu. Aí eu entro na academia, cumprimento as pessoas ao meu redor, finjo que alongo, dou aquela conferida básica no espelho para ver se não tem nada fora do lugar – sempre tem alguma coisa do tipo: mecha de cabelo fora do rabo, cadarço do tênis desamarrado, celulite inconveniente na coxa, culote sem noção, enfim, oremos -, subo na esteira, coloco música e começo a caminhar.
Adoro colocar no modo aleatório, porque tem tanta música no meu celular que a próxima é sempre uma surpresa. Se neste segundo eu estou ouvindo Kate Perry e pensando na minha Last Friday Night, no próximo eu posso estar escutando, vocês sabem, Cabelo Cor de Ouro, do Gustavo Lima. E hoje sabe quem deu as caras? Meus queridos Carlos e Jader. Lembram? É, aqueles, que esculacham toda a galera que carrega cromossomo Y no DNA. Pois é. Mas hoje eles vieram com aquela ousadia toda e na metade da música uma tal de Naiara Azevedo invadiu e começou a cantar a versão dela, em resposta à letra original da música “Sou Foda”. E, obviamente, eu pensei que, se eu escrevi sobre os meninos, devo também escrever sobre ela. E durante 45 minutos eu ouvi a mesma música, para avaliar e fazer a minha interpretação. Vamos lá.
“Coitado, se acha muito macho, sou eu que te esculacho.” Se acha muito macho? Olha, a lacuna de qualidades se dá em quase todos os outros atributos, mas eles são, sim, muito machos. Eles têm coragem de dizer o que pensam, eles fazem o maior auê entre quatro paredes, eles se preocupam com o teu bem estar até onde vai a jurisdição onde pertencem, não mentem para você e nem fazem falsas promessas. E sim, eles vão encarar o seu marido, o seu amigo e o seu vizinho e dizer tudo aquilo na cara deles se for necessário, porque eles têm coragem. É da personalidade deles e faz parte do charme.  “Prepotente, arrogante, não serve para amante, talvez nem para ficante.” Não, não, espera aí: não serve para amante? Naiara, é SÓ para isso que eles servem e é SÓ isso que eles querem ser para você. Eles nunca te fizeram promessas de amor, eles nunca te pediram em casamento, eles não mentiram. Você gosta deles porque você gosta, porque eles fazem massagem no seu pé, tratam bem as suas amigas, são simpáticos e nunca vão falar mal da sua mãe. Achei que isso já estivesse claro.
“E não se esqueça de que, no final das contas quem vive de putaria leva fama de chifrudo.” Olha, sinceramente, esta foi a consideração mais contraditória que eu já ouvi no mundo do sertanejo – quer dizer, perde para “vamos pegar o primeiro avião, com destino à felicidade, e a felicidade, para mim, é você” -, mas não vou negar que, sob certo viés, ela tem fundamento. Quem vive de putaria, uma hora, fica com fama, fama de alguma coisa, e fica sozinho. Chifrudo depende muito das circunstâncias, mas se existe uma lei que funciona no mundo é “aqui se faz, aqui se paga”. Nessa vida ou na próxima, depende da sua evolução.
Mas aí, Naiara, quando você está quase recuperando o raciocínio você se perde de novo... concordo que rimar é legal, mas e a semântica? “Antes de eu me esquecer, só para você saber, todos, todos que provaram são melhores que você.” Mentira, Naiara! Eles são o Carlos e o Jader, lembra? Eles são melhores que o seu marido, que o seu amigo, o seu vizinho, todos os homens do seu círculo social e esse mérito você nunca vai conseguir tirar deles! E assim, concordo, melhores do que todos eles até podem não terem sido - não dizem por aí que sexo com amor é o melhor de todos? -, mas eu duvido que eles foram piores do que o seu colega do terceiro ano do colegial com quem você teve uma noite (muito) duvidosa depois do baile de formatura.
E assim... “Se acha o bicho, nem era tudo aquilo que contava para os amigos, eu sempre te defino desanimador”. Desanimador, Naiara? E é por isso que você se deu ao trabalho de escrever uma música para eles? Senti uma certa dor de cotovelo do começo ao fim da letra, aquela dor de cotovelo que todas nós sentimos uma vez na vida quando gostamos muito de alguém mas não somos correspondidas na mesma intensidade. Aí nós, mulheres, temos, inevitavelmente, a propensão de nos sentirmos usadas e descartadas quando, muitas vezes, nós aproveitamos o momento tanto – se não mais – quanto o Carlos e o Jader. Sei, reconheço e admito que cada caso é um caso, mas não dá para negar que de maneira geral as mulheres têm fama de  “usadas” e os homens de “quem pega e joga fora”, e eu não acho – mesmo - que seja, dentro do contexto de cada história, sempre assim. Alguns romances já nascem com prazo de validade vencido e somos orgulhosos demais para admitir. Se não fôssemos, talvez, sofreríamos muito menos, porque dói muito mais pelo orgulho do que pelo sentimento em si – que às vezes sequer existe. O importante é saber – sempre – respeitar a si mesmo, mas temos que aprender a fazer isso sem nos vitimizarmos o tempo inteiro. E o respeito por si mesmo não é parar de conversar com o Carlos e com o Jader e falar mal deles, é ficar com o Carlos e o Jader sem se iludir com as circunstâncias até o momento em que isso fizer bem, fizer feliz. Quando os poetas escrevem aqueles textos que a gente recebe por email dez vezes por dia, enviados por pessoas chatas que não têm o que fazer, e que dizem “a vida é curta”, é porque a vida é. Curta, imprevisível e passageira. Sim, é óbvio, não tem como ser feliz, despreocupado e intransigente o tempo inteiro, todos temos obrigações, mas, então, temos o dever e a missão de aproveitarmos cada instante até o momento em que as responsabilidades – conosco e com os outros – nos obrigue a tomar outras atitudes. A gente só sabe valorizar os momentos bons porque conhecemos a sensação de um momento ruim, e momentos são momentos. Eles vêm, mas eles vão. Alguns, felizmente, têm o poder de permanecer. Permanecer e preencher. Aproveite o que te faz bem, aprenda com e descarte o que não te faz. Como diz o poeta, “existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás”.

Ritmo, é ritmo de festa!

Minhas últimas semanas aqui em São Paulo têm sido tão intensas e divertidas quanto as primeiras... apesar de quase todos os jornalistas levantarem a bandeira do “quer ganhar bem, não seja jornalista” ou “jornalista é sempre escravizado” existe,  sim, um leque – nossa, quem fala leque?!? – muito grande de vantagens e possibilidades àqueles que escolheram a profissão das palavras. E dos sons. E das imagens. E das vozes.
Não se iludam. Sou, sim, apaixonada pelo jornalismo, mas o meu amor por São Paulo, por exemplo, e por carboidratos, é muito maior.  Mas ultimamente escrever – por mais que eu tenha abandonado o blog por uns tempos – tem me deixado muito feliz. Escrever e observar. Tenho uma grande – uma das melhores e mais incríveis jornalistas que conheci na faculdade – amiga aqui em São Paulo, a Gabriela Forlin, que precisou fazer algumas resenhas de bares e baladas para o portal do Estadão (e viva o cartão corporativo!). Eu, como boa companheira de classe desde os primórdios anos de 2006, fui acompanhá-la e vou relatar aqui as nossas (deliciosas) experiências.
Começamos o trabalho com o pé direito. Na verdade, até o esquerdo se converteu e virou do bem, porque nossa primeira parada foi no bar KiaOra. Era uma quarta-feira super agradável e a gente simplesmente estava naquela vibe do Sílvio Santos (ritmoooo, é ritmooo de festa). O lugar é sensacional, por alguns detalhes muito pontuais: gente bonita, música boa, ambiente agradável. Tradicionalmente, pelo comentários que ouvi, as noites de quinta são as mais agitadas, então, naquele dia, apesar de haver muitas pessoas, a gente conseguia ter mobilidade física (detesto estar em um lugar onde eu me sinta pegando o metrô na estação Sé às 8h da manhã).  E quando você esbarra em alguém, você esbarra em pessoas bonitas, bem arrumadas, mesmo que sob os mais diferentes estilos e gostos. Tem gente de terno e gravata, gente de pólo, gente de camiseta, gente de vestido, gente de calça. E, sobretudo, gente com vontade de esquecer o chefe tirano, a prova da faculdade, a fatura do cartão de crédito e divertir.
Sabe quando você para para observar as cenas e ouvir os sons a sua volta e estes sons são de várias conversas simultâneas, com risadas altas e assimétricas? E mesmo assim existe uma profunda – e paradoxal - harmonia no ambiente? É assim que eu resumo o bar. O som é ao vivo; um cantor e um violão agitam a galera mesmo quando toca Flake, do Jack Johnson, ou alguma música ainda mais lenta. A decoração é clean sem deixar de ser sofisticada e a iluminação te coloca no clima sem te fazer ficar no escuro. O cardápio é bastante variado, com cervejas de vários países e muitas opções de pratos aparentemente muito apetitosos... nosso pedido ficou restrito a uma generosa porção de nachos, que eu sequer experimentei, já que estava muito ocupada saboreando um copo mais comprido que a Coluna Prestes da cerveja alemã Erdinger, que eu nunca tinha tomado. A top one na minha lista sempre foi a Dos Equis, do México, mas preciso confessar que a Erdinger conquistou meu coração. Claro que eu fiquei mal no dia seguinte, afinal, quem bebeu Skol a vida inteira não tem lá um fígado muito bem preparado.
Em suma, aquela quarta-feira me deixou mais apaixonada ainda por São Paulo e foi o ponto de partida para outras noites que se seguiram em outros bares, como o Wall Street Bar, que, originalmente, não estava na nossa lista e foi um agradável desvio de percurso. A característica mais incrível do Wall Street é o sistema adotado para o preço das bebidas, que obedecem à lógica proposta pelo nosso querido Adam Smith e hoje em dia consolidada em todas as bolsas de valores do mundo. As bebidas mais pedidas – e, em consequência, valorizadas – ficam mais caras no decorrer na noite, enquanto as menos pedidas sofrem desvalorização e se tornam mais baratas. Uma tela digital que contorna todo o ambiente (nos dois pisos) informa as oscilações e há um computador em cada mesa por onde os pedidos podem ser feitos sem ser necessário esperar o garçom. É muito prático, rápido e divertido. Não acho o local ideal para paquerar, mas sem duvidas o Wall Street é o um ambiente excelente para comemorar aniversários, fazer despedidas, happy hours, sair com uma turma de amigos com a finalidade de dar risadas e apreciar boa comida e boas, muito boas, bebidas. Ah sim, e só tem gente bonita, mesmo. Praticamente fechamos o lugar, junto com os garçons.
Na sexta-feira o ritmo de festa continuava e o nosso destino foi o bar latino Rey Castro. Como eu fui mexicana na minha última encarnação, não preciso nem dizer que amei o lugar praticamente mais do que eu amo o novo álbum da Adele. Por mais que o bar se defina como cubano, as características também são do Peru, do México, da Colômbia, da Venezuela... Mesmo que a música fosse horrível e eles não vendessem Erdinger (sim, virei fã) o lugar ganha você pelo clima e pela decoração. Quem aprecia ambientes calientes, com tema bem definido, pouca luz, certamente vai se apaixonar pela casa, que começa a encher depois da meia noite. O Rey Castro é... sedutor. Para animar a galera, uma dupla (ou banda) embala músicas de cantores latinos tradicionais com habilidade tal que conseguem captar toda a inspiração dos artistas originais. E as músicas que não são latinas se tornam latinas, ou seja, não se surpreenda se escutar Beyoncé no ritmo de Corazón Partido. Americanos, argentinos, peruanos fazem parte do público do local. (Nota: Querida Yana, pensei muito em ti lá! Irias arrasar os corações do povo!)
Na outra semana, após uma parada – eventualmente foi preciso retomar as nossas atividades diárias como trabalhar, comer, atender o telefone, caminhar sob a luz do sol e coisas do gênero – de alguns dias, fomos ao O’ malleys, um pub irlandês que literalmente faz com que você se sinta em Dublin. Eu nunca fui à Irlanda, mas a sensação que dá quando você entra no bar é justamente essa: “minhas preces foram atendidas e eu adquiri poderes de teletransporte e cheguei em Dublin pela força do pensamento”. É exatamente como vemos nos filmes, a decoração, os banheiros, as cervejas. O lugar é legal para quase tudo: comer, beber, paquerar, fazer happy hour, ver jogos de futebol ou outros torneios internacionais que eles transmitem e se divertir com amigos.
Ficamos algumas horas lá (muitas, muitas gargalhadas) e na seguida atravessamos a rua em direção ao Squat, outro bar suuuuper legal que ganha de todos os outros em um detalhe muito importante: atendimento. Mesmo antes de falarmos que éramos jornalistas, fomos extremamente bem atendidas e nos sentimos muito à vontade. Nota dez para o mojito (não façam como eu fiz, por favor apreciem com moderação) e para a sobremesa de churros com sorvete (só para constar, havíamos comido batatas fritas com queijo cheddar e bacon no O’malleys, mas ninguém comenta, ok?). No Squat você pode dançar, paquerar, comemorar aniversários (eles têm área reservada para vips) e sem dúvidas encontrar gente bonita (tá todo mundo em SP é bonito!) e música boa.
Para encerrar nossa temporada de festas, na quinta, já com algumas habilidades físicas e emocionais comprometidas, saímos de SP e paramos no Texas! Bom, pelo menos é assim que a casa de música sertaneja “Villa Country” se posiciona no mercado. E é, de fato, como se você entrasse em outro país. Como na minha encarnação anterior à encarnação de mexicana eu fui fazendeira – Rainha do Gado –, eu sou fã de carteirinha de música sertaneja, chapéu, camisa xadrez e ambientes rústicos, e eu dou nota 10 para o Villa meeesmo! São vários ambientes que agradam todos os tipos de gostos (banda, dupla, violão, pista, bar, dançar agarrado, dançar sozinho, camarote, mesa) e muita, mas muita gente! Como eu já estava um pouco cansada das últimas noites, meu alterego antipático– sim, eu tenho um -, tomou conta de mim quando um guri, insistentemente, tentou dançar comigo. Ele chega, com cara de malandro, me olha (eu carregando duas bolsas e duas garrafas de água, enquanto minha amiga era seduzida por um cara que queria levá-la para Uberaba) e diz:
- Oooii, quer dançar?
- Não, estou aqui à trabalho.
- Quer whisky?
- Não, não vou beber hoje.
- Quer energético?
- Não, vou ficar na água mesmo.
- Você é do sul, né?
- Sim.
- Uia sangue ruim, hein?
Como se não bastasse esta falta de delicadeza, eu, comprovando a Lei de Murphy, encontrei o guri inúmeras vezes naquela noite. E em todas as vezes ele me olhava com uma expressão de duende do mal que dizia: -Sangueee ruimmmm!!!
Para finalizar a nossa balada, enquanto um guri de 20 cm de altura tentava, como vários outros, seduzir a minha amiga, um rapaz muito ousado se aproxima e fala:
- Moça, que batom horrível! Quer que eu te ajude a tirar?
Eu, supresa com tamanha sinceridade, e com um pouco de medo, já que ele olhava fixamente para o meu batom, falei:
- NÃO.
Ele, nada incomodado com a resposta, levanta a cabeça, me olha serenamente e diz:
- Tá, mas o batom... é feio mesmo.
Bom, enfim, sabemos então que no Villa Country a minha audiência é baixa, mas, apesar de todos estes eventos, amei a noite. Consegui impedir que a minha amiga fosse sequestrada e levada a Uberada e conhecemos várias pessoas legais. Dançamos muito, rimos muito, bebemos pouco (finalmente) e sem dúvidas aguardamos ansionamente a nossa próxima viagem ao Texas.
Então, gente, eu descobri que ser jornalista é muito melhor do que eu esperava na época da faculdade. Aquele papo de fazer o que se gosta... não é que é verdade mesmo?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Um dia de Bridget Jones

Quem já leu os livros que contam a saga da jornalista inglesa Bridget Jones, da escritora Helen Fielding, ou assistiu às duas adaptações das obras no cinema, sabe que quando se trata de Bridget o caos é garantido. E o meu dia, até agora, foi uma sucessão de acontecimentos que me fizeram sentir exatamente como ela, com a (enorme) diferença de que eu não estou em Londres, meu salário não é em libra esterlina e eu não sou namorada do Mark Darcy.
Quando o meu despertador tocou às 5h40 da manhã eu pensei que deveria ser uma brincadeira. Lembra de quando o Gugu apresentava um quadro no Domingo Legal em que ele e a produção iam às casas dos famosos acordar as pessoas? Sempre achei que um dia talvez isso fosse acontecer comigo, porque quando eu era pequena eu achava que seria famosa no futuro. Como ontem eu fiquei – imprudentemente – no sofá até quase uma da manhã vendo alguns episódios Friends que eu já devo saber de cor, na hora em que o meu organismo finalmente se deu em conta de que eu estava dormindo eu precisei acordar. Fui para o chuveiro ainda de olhos fechados e, quando eu abro a torneira, a primeira surpresa do dia: a água, que acabara na noite anterior, ainda não tinha voltado.  Como hoje eu supostamente teria que gravar uma entrevista no meu trabalho, era imprescindível que eu lavasse e escovasse os meus cabelos, a fim de me tornar um ser humano apresentável. Eu já estou super gripada e parecendo o Fofão. Cabelo feio não tem como, né? Na ausência de água, fui obrigada a inventar um rabo de cavalo super fashion e enchi tanto o meu cabelo de laquê que eu parecia um Power Ranger, de capacete. Tomei meu café enquanto assistia Tele Curso 2000, larguei mão de regime de novo enquanto comia uma generosa fatia de bolo de cenoura e saí de casa.
Até hoje, eu nunca tinha vindo ao meu trabalho em Alphaville sozinha, sem o meu colega Fernando. Eu não sei viver sem o Fernando. O Fernando organiza minha vida. É o Fernando quem sabe das coisas. Desci na Av. Rio Negro após duas horas e meia de trânsito de SP até aqui e resolvi confiar nos meus instintos geográficos – como se ao invés da aorta eu tivesse uma bússola grudada no coração - ao caminhar na direção que eu acreditava ser a o meu trabalho. Achei melhor buscar o endereço exato no Google (Alameda Madeira, 44) e ver a melhor forma de chegar aqui. Quando estamos de salto, todo passo é um esforço. E de lá eu saí, caminhando e cantando e seguindo a canção. Parei para pedir informações no caminho algumas vezes e depois de 25 minutos eu percebo que não existe prédio algum na Alameda Madeira, 44, parecido com o do meu trabalho. Pensei: será que eu esqueci como é a fachada do prédio? Será que o prédio mudou de ontem para hoje? Será que eu estou na cidade certa? Achei melhor ligar e falar com alguma colega, a Tati ou a Ana. A Tati e a Ana são muito focadas e objetivas. Essas coisas não acontecem com elas. Eu ligo, peço pela Tati... a Tati atende, eu explico o drama. A Tati fala:
- Karis, você sabe que o endereço no site é o antigo, né? Nós nos mudamos um pouco antes de você começar a trabalhar. E você está em uma direção completamente errada. E você esta de salto?
Na hora eu roguei uma praga silenciosa para todas as pessoas do planeta e comecei a voltar para a Av. Rio Negro quando, de repente, me dou em conta de que esqueci a minha agenda em algum dos locais onde parei para pedir informação. Eu não sou ninguém sem a minha agenda desde que decidi colocar todas as informações mais relevantes sobre mim e faturas que eu preciso pagar dentro dela. Foi preciso passar em todos os lugares e, evidentemente, ela estava no primeiro lugar onde havia parado antes, ou seja, no último lugar onde eu passei na volta. Tudo bem, life goes on.
Nessa altura, o rabo de cavalo fashion tinha virado um coque desalinhado, eu já estava com o meu sapato na mão, o terninho amarrado na alça da bolsa, a agenda pendurada em algum outro membro. Resolvi dar mais uma olhada no Google com a mão que estava livre, e como o sol estava forte, foi preciso aproximar muito o celular do meu rosto. E é claro que eu dei de cabeça em uma placa, que, além de aparecer do nada na minha frente, não continha nenhuma informação que me interessava. Todas as pessoas ao me redor apreciaram a cena sem moderação. Acho que a pancada me desnorteou. Eu não sei porque eu fiz isso exatamente, mas, mesmo na duvida, eu continuei andando na direção que me parecia correta. Karis, cai na real, São Paulo não é São Miguel do Oeste, distâncias aqui realmente significam alguma coisa. Depois de mais 10 minutos de caminhada, eu estava me sentindo a Dorothy do Mágico de Oz, quando ela tem o célebre insight “I dont think we are in Kansas anymore”. Cheguei a me perguntar se de tanto andar eu não havia atravessado o Rio e parado no Espírito Santo.
Mas logo na sequencia eu parei de considerar essas hipóteses. Segurei na mão de Deus e fui... impossível Alphaville ser desse tamanho. Acho que na verdade isso foi birra, teimosia. Ao invés de ficar com raiva de mim e da minha falta de planejamento, eu resolvi me iludir com o fato de que, mais cedo ou mais tarde, o prédio onde eu trabalho simplesmente apareceria. Liguei para a minha colega de novo, que já estava pensando que eu havia sido sequestrada e vendida no Tráfico Internacional de Mulheres, para avisá-la que eu estava quase lá. Mas, depois de mais quase vinte minutos, eu vi uma rodovia que leva à outra cidade. Parei. E pensei: “definitivamente nós não estamos no Kansas anymore”. Eu percebi o quanto eu estava cansada no momento em que resolvi ligar para um táxi me buscar (engraçado, né, na semana anterior meu chefe me deu um cartão de um taxista em Alphaville... será que ele previa algo do gênero?) e enquanto eu esperava decidi descansar a minha não beleza de hoje em um canteiro muito, mas muito confortável... Coloquei Adele (aos poucos estou superando Carlos e Jader) e fiquei lá, deitada, sem sapato, sem casaco, com a bolsa no colo. Eu sabia que eu parecia um mendigo, mas depois de tirar o sapato, bater a cabeça e perder a agenda, eu já havia perdido mesmo toda a minha dignidade.  Foi quando o segurança de uma construção das redondezas se aproxima delicadamente por trás – sem sacanagem, por favor - e fala:
 - Moça, você está bem?
Pausa. Moça, que moça? Eu sou um mendigo, me deixa em paz.
- Moça? Moça?
Ai tá bom, moça eu. Olhei para ele e disse que estava tudo ótimo, que eu só estava esperando um táxi. E ele, pouco convencido:
 - Bom, nesse caso, moça, você não pode ficar deitada aí, ok?  
Pensei em falar: Bom, nesse caso, moço, eu estou passando muito mal. Mas, como as regras não são feitas por ele, eu simplesmente recolhi meus objetos pessoais do chão, tentei achar minha dignidade mas ela não estava lá e fiquei de pé, no canteiro, parecendo uma militante do MST. Logo o Joel (taxista) chegou e levou ao trabalho.  É claro que ele me perguntou:
- Moça, como você veio parar aqui?
- Hummm, Joel, não quero falar sobre isso. Vamos falar sobre geografia... qual a distância entre SP e Espírito Santo?
Evidentemente que o meu chefe – sempre muito gentil em seus comentários acerca dos meus desvaneios – me deu o maior sermão do mundo, ao mesmo tempo que riu muito da minha cara e de todos os gravetos e folhas que ficaram presos no laquê do meu cabelo. Em um lugar tão grande quanto a região metropolitana de São Paulo, cada segundo é muito precioso. É lógico que eu acho sensacional a ideia de viver a vida com aventura, sem saber o que vai acontecer, deixar tudo rolar... mas isso se aplica apenas nos finais de semanas onde a minha única responsabilidade é chegar com vida em casa. Para quem trabalha ou estuda, tem horário, responsabilidades, tarefas e atribuições, planejamento e organização são imprescindíveis, essenciais. Saber acreditar na sorte não significa necessariamente viver sem se planejar, pensar sem refletir, fazer sem ponderar. :)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Da letra à sedução

Faz umas três semanas que eu ouvi uma música muito interessante. Na verdade, não sei se interessante é o adjetivo mais apropriado, mas fiquei com a letra na cabeça e há alguns dias quero escrever sobre isso. A composição é tudo menos clássica, tudo menos sofisticada e tudo menos romântica. Mas é lírica. Lírica no sentido literal da palavra. Do dicionário, poesia lírica, atualmente, é o gênero em que o poeta expressa suas emoções, percepções e sentimentos pessoais. E esse cara – esse não, esses – me soaram tão sinceros que deve ser coisa da emoção, da percepção e do sentimento mesmo!
Não sei se foi o Carlos ou se foi o Jader, mas eu sei que, segundo eles mesmos, eles são “foda” e na cama “te esculacham”. Além de dar lição de moral, o esculachar também significa fazer algo perfeitamente, melhor do que qualquer pessoa. É neste segundo sentido que eles falam, e não para por aí! “Na sala ou no quarto, no beco ou no carro”, eles são sinistros! “Melhores do que o seu marido” – quem dirá então do seu amigo, dos seus vizinhos e de todos os homens do seu círculo social – “na cama são peritos (e, mais tarde, um perigo) avassaladores”. Em suma, eles esculacham o seu amante, o seu ficante e todo mundo com quem você já ficou. (Em tempo: a única mulher que consegue ter marido, amante e ficante é a Mulher Maravilha, pois ela tem poderes de teletransporte, maquiagem definitiva e cabelo à prova de tempestades).
De maneira alguma essa letra ofende, ou me ofende. Não pretendo criar uma discussão sobre as ousadias masculinas e o quanto elas podem representar um desrespeito às mulheres. Não sou a maior das feministas e tampouco uma soldada na Guerra dos Sexos. Até vejo sentido nesta reflexão, mas não é isso que essa letra desperta em mim. Eu quis escrever porque estou é muito admirada com a pretensão do cara em afirmar com tanta destreza e segurança que ele é tudo isso. Nunca vi ninguém com tanta confiança no próprio taco (sentidos literal e figurado!). Por mais que você se revolte com tamanha indelicadeza, você precisa admitir, ele também convenceu você! E, para muito além da peculiaridade da letra, a música tem um ritmo muito bom e é extremamente fácil para decorar os versos. Imagine para dançar! Quando você menos espera está lá, em alto e bom tom, dizendo que o perito avassalador acaba com você. E você gosta dele porque ele é simpático, é legal com as suas amigas, faz massagem no seu pé e nunca vai falar mal da sua mãe.
Ao invés de ferir meus princípios, ou a atuação do meu namorado imaginário na cama, essa música despertou em mim sensações diferentes. Gabriel García Márquez, sei que você vai querer me matar, mas existe literatura na composição mais ousada do mundo do sertanejo. A impressão que me dá é que cada mulher que escuta esta música pensa no quanto um romance avassalador é bem vindo às vezes, daqueles puramente físicos, sem qualquer outra responsabilidade ou atribuição que faça refletir, pensar ou ponderar. Todas nós esperamos um dia ter um tórrido caso de amor, seja proibido, seja escondido, seja liberado. Daqueles errados, imorais, inconseqüentes, libidinosos. Daqueles sem intelecto, sem conversa, sem DR. Sem DR! Daqueles que te fazem ficar corada no elevador, sorrir na frente do computador e viver com o arrepio no pescoço. Mas existe um tabu, existe uma repressão. Seja porque ele era um ficante da sua amiga, o melhor amigo do seu irmão, o primo (lindo) do seu ex-namorado ou o seu próprio primo (lindo também!). A verdade é que, quando nos deparamos com alguém com quem não podemos ficar pelos motivos mais tradicionais – e verdadeiros -, como amizade, fidelidade, consideração, prudência ou inteligência, mas por quem temos um desejo absurdo de estar junto, geralmente atribuiríamos a essa pessoa a capacidade de nos fazer sentir algo parecido com o que o Carlos e o Jader fazem a mulherada sentir por aí... por mais que talvez, em essência, não seja tudo isso. Não dizem que a ocasião faz o ladrão? Então, Carlos e Jader, independente do repertório sexual de vocês, obrigada por essa música tão divertida, que me faz literalmente rir na esteira – as pessoas na academia já repararam que há algo errado comigo em determinados momentos – no metrô e na rua. Sim, sim, vocês dividem o cartão de memória do meu celular com a Adele e às vezes escuto Sou Foda antes mesmo de One and Only e Rolling in the Deep, porque eu gosto de dar risada e imaginar o dia em que, talvez, eu cante isso de fato pensando em alguém.





segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mãos ao alto!

Eu acho que a maioria das pessoas vai dizer que foi uma grande ironia, e foi. Um dia depois de eu ter feito  - com todo o meu amor e admiração - meu post sobre São Paulo, eu fui assaltada.  Em São Paulo!

Saí do trabalho no sábado eram quase sete horas da noite, logo depois da Princesa Isabel ter assinado a Lei Áurea e libertado a mim a aos meus colegas. Decidi ir à pé encontrar meu Guardian Angel Junior, com quem eu moro, para então irmos juntos para casa. O Junior já dissertou durante anos acerca da necessidade de só andar com as cópias dos documentos na bolsa, de jamais falar no celular em ruas desertas quando eu estou sozinha, de não parecer uma paquita estrangeira quando passo por lugares mais críticos – para não dizer perigosos -, de sempre fechar a bolsa (é, eu esqueço deste detalhe, por mais útil que ele pareça ser) e muitas outras coisas do gênero. Em minha defesa, garanto a vocês que sábado eu não parecia uma paquita estrangeira, minhas olheiras estavam tão profundas que, se eu fosse o assaltante, eu teria pensado duas vezes antes de me abordar. Mas, evidentemente, enquanto eu estava passando por uma rua deserta, próxima a uma estação de metrô, eu estava com a bolsa aberta (e com todos os documentos nela), ouvindo gnomos tocando violino e sem fazer ideia das coisas que aconteciam ao meu redor. Ou seja, se o assaltante estava me seguindo, ele deve ter pensado: ou ela é autista, ou ela é minha colega de profissão.

Meu celular tocou e era uma ligação... interessante. Naquele momento esqueci todos os conselhos super importantes do Junior e atendi o celular, com uma expressão super animada de quem faz planos para um sábado promissor. Eu não sei se a minha capacidade de observação foi prejudicada na hora, porque eu não lembro – mesmo – de ter visto ou percebido alguém se aproximando de mim. Só sei que, mal eu disse um "alô" bem mixuruca que passava a falsa impressão do “nossa, eu não esperava sua ligação” e eu fui abordada por um homem que, sem dúvidas, tinha tanta olheira quanto eu. Aliás, pessoal, máscara de pepino faz milagres nessas horas, ok?

Naquele instante eu não me dei conta de que estava sendo assaltada. Infelizmente eu tenho esse lado paquita ingênua que acredita que jamais vai ser atingida pelas mazelas do mundo, como se Deus liberasse por dia uns dez guias espirituais para cuidar de mim na rua, na chuva e na fazenda. Então quando ele me olhou (aliás, a barba também merecia um upgrade, não só a região dos olhos, sem contar que uma pinça naquela monocelha também iria operar milagres), enquanto colocava a sua mão no meu braço para me segurar (ah, um banho sempre ajuda!) e disse: - Quieta, me passa o teu celular, rápido! - eu demorei alguns 5 segundos (e em um assalto 5 segundos podem ser determinantes) para entender que ele não queria me dar Oi, ele queria me roubar! Eu, contrariando todas as leis de um assalto, usei os 1,69 cm de coragem que existem em mim, olhei para ele pausadamente (quem sabe minhas olheiras também causassem efeito) e disse:

- Não.

E ele (no mínimo surpreso, pensando: mas olha que paquita cara de pau!) respondeu:

- Me dá aqui esse celular AGORA! Vamo, vamo, vamo! (Ai, odeio gente que fala errado... se bem que, se ele me dissesse: -Vamos, vamos, vamos!" eu teria enganchado no braço do cara e dito: -Sim, aonde?)

E eu:

- O meu celular não.

Então eu olhei para baixo e vi que talvez aquilo não fosse Pegadinha do Malandro, porque ele tinha uma faca. E que faca mais suja! Falta de consideração assaltar os outros e nem limpar o objeto de trabalho. Fato que se ele me cortasse eu iria pegar tétano e sabe-se lá mais o que. Aí olhei para o meu celular novinho, lindinho, branquinho, cheio de contatinhos, com todas as músicas da Adele que eu demorei 20 anos para aprender a passar e pensei: espero que um dia você me perdoe. Soltei a minha mão (que prendia o celular como se ele fosse a Pedra Filosofal do Harry Potter), ele o pegou e saiu correndo, levando com ele todos os meus programas pra aquela noite.

Foi neste momento e só neste momento - aliás, como às vezes eu demoro para interpretar certas coisas - que eu me dei conta que aquilo tinha sido um assalto. Aí o nervosismo chegou e eu comecei a rir descontroladamente. E a tremer descontroladamente. Entrei em um boteco na próxima esquina, pedi uma dose de 51 (tá, esse parte é mentira, mas pensando melhor teria sido uma boa) e fiquei rindo - entendi porque talvez o Junior me chame de Paquita - ao mesmo tempo que contava, entre sílabas cortadas e tremidas, que havia sido assaltada, e pedi para usar o telefone. E eles disseram: Assaltada? (No mínimo olharam para as minhas olheiras e pensaram: -Aham, Cláudia, senta lá), mas me emprestaram o telefone.

O resto do sábado envolveu bloquear meu número, recuperar meu número, flertar com o funcionário da TIM, furar fila, comprar aparelho novo, ouvir vários sermões do Junior e agradecer, muito, por ter alguém tão legal para poder contar nessas horas. Três horas e merecidas ribs on the barbie, Frech Fries e onion rings (Outback I love you) depois, estávamos em casa rindo dos acontecimentos, afinal, ele poderia ter levado a minha bolsa com a minha carteira e todos os meus documentos e cartões. Então não podemos dizer que eu não tive sorte, porque eu tive. Terceira temporada de Friends no DVD, brownie no forno e chá de boldo para evitar a congestão, meu sábado terminou de uma forma tão incrível quanto como se o assaltante não tivesse me escolhido entre todas as paquitas de SP e feito com que eu mudasse meus planos.

P.S. Agradecimento super especial à Gabriele Gransotto, primeira pessoa que soube do ocorrido e que, mesmo dois estados longe de mim, já agilizou soluções para o caso. Te amo, maridinha.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

In the city of blinding lights

As noites são, em especial, um espetáculo para mim. Tenho uma espécie de tara – no melhor sentido da palavra, se é que existe algum – por luzes e pelos contrastes que elas compõem. Da sacada do meu apartamento ou do agito da Faria Lima às 19h, as luzes de São Paulo são tão intensas e tão sequenciais que eu acredito fielmente que nunca vou me cansar disso, ou me cansar daqui.

Ontem, enquanto eu voltava para casa depois do trabalho, a demora e o engarrafamento não me incomodaram, e eu tive a genuína impressão de que todas as pessoas nos carros ao meu redor se sentiam da mesma forma. O clima extremamente agradável e a lua cheia – que parece ter sido feita sob medida para essa cidade - estavam na mais absoluta consonância com a trilha sonora – Adele, Adele, Adele! – e foi aí então que eu decidi que o meu primeiro post seria sobre São Paulo. Nada mais justo do que homenagear o lugar que da noite para o dia se tornou o novo amor da minha vida, após uma sucessão de acontecimentos muito turbulentos que, felizmente, me fizeram mudar para a melhor e para o melhor.

Já me disseram que com São Paulo não existe meio termo. Ou você se apaixona no instante em que pisa aqui pela primeira vez ou você simplesmente não gosta da cidade e nunca vai gostar. Como vocês já devem imaginar, me encaixo no primeiro caso. Eu já estive aqui em outras ocasiões, mas em excursões escolares de quando você tinha 14 anos e não sabia diferenciar Pinacoteca de Museu Ipiranga, Van Gogh de Monet, vinho de keep cooler, você não consegue captar de fato a essência de cada lugar. Muito menos quando você vem para tirar seu visto americano no consulado mais lotado do país, morrendo de medo que te achem parecida com uma das 87 esposas do Osama Bin Laden e neguem a sua solicitação. Foi apenas em minha última e recente viagem a SP que eu fui definitivamente hipnotizada pela cidade brasileira das blinding lights.

Apesar de ser jornalista e de conhecer a Teoria das Representações Sociais – graças a um TCC que rendeu dores de cabeça a todo o Corpo Docente da universidade onde me formei -, eu estava muito habituada com a ideia de que SP era, sobretudo, o caos em tantos segmentos da vida em sociedade que seria impossível realmente querer se mudar para cá. Como a maioria das notícias se pauta na violência, na poluição e no trânsito caótico, eu me surpreendi muito com a sensação que me invadiu quando, em um final de tarde, eu desci do metrô no terminal Consolação, na Av. Paulista. Eu olhei para aqueles prédios tão diferentes e tão iguais entre si, iluminados sobretudo pela luz da lua, e a cena era tão encantadora que durante um bom tempo eu sequer me dei em conta que daqui nós não podemos ver as estrelas. Aquelas imagens foram, para mim, uma sequencia quase irreal dos instantes decisivos de Henri Cartier Bresson.

Para mentes inquietas, SP é um estímulo que não termina. A cada esquina que você vira, cada rua que você descobre, cada café que você entra, existe alguma coisa interessante de se conhecer. As pessoas aqui são extremamente solícitas e educadas, mesmo quando a pressa impede que a conversa se alongue. Você pode andar de carro durante horas a fio e dificilmente passa duas vezes no mesmo lugar, e quando passa, parece que as coisas já estão um pouco diferentes. Existe uma simetria assimétrica em SP, uma harmonia desarmônica, um conjunto tão grande de contrastes e paradoxos que fazem daqui um lugar único e, para mim, muito especial. Evidentemente que talvez eu me sinta dessa forma porque, para mim, estar aqui representa uma ruptura em muitos aspectos e eu precisava disso em todos esses aspectos. Mas o fato é que me mudar para essa cidade acrescentou algo em mim que eu não tinha, em categorias onde eu já me considerava completa. Por isso, Dear São Paulo, estou aqui para dizer, sem analogias ou metáforas vagas, que eu amo você.