terça-feira, 9 de agosto de 2011

"Sou foda, a resposta": uma análise

Na academia eu só faço esteira e bicicleta, porque meu projeto de vida é o mesmo desde 1986: emagrecer. Não quero definir nada não, nem aumentar massa magra, nem isso, nem aquilo. Quero poder comer carboidratos de rápida ou lenta absorção sem sentir que, quando me olho espelho, eu estou na verdade diante de um oficial da Igreja Católica durante a Inquisição. Falando nisso, imagine se comer bastante fosse, além de pecado, uma heresia! Fato que nem se eu comprasse todas as indulgências disponíveis no Mercado Livre e no Ebay eu iria conseguir um lugar no céu. Aí eu entro na academia, cumprimento as pessoas ao meu redor, finjo que alongo, dou aquela conferida básica no espelho para ver se não tem nada fora do lugar – sempre tem alguma coisa do tipo: mecha de cabelo fora do rabo, cadarço do tênis desamarrado, celulite inconveniente na coxa, culote sem noção, enfim, oremos -, subo na esteira, coloco música e começo a caminhar.
Adoro colocar no modo aleatório, porque tem tanta música no meu celular que a próxima é sempre uma surpresa. Se neste segundo eu estou ouvindo Kate Perry e pensando na minha Last Friday Night, no próximo eu posso estar escutando, vocês sabem, Cabelo Cor de Ouro, do Gustavo Lima. E hoje sabe quem deu as caras? Meus queridos Carlos e Jader. Lembram? É, aqueles, que esculacham toda a galera que carrega cromossomo Y no DNA. Pois é. Mas hoje eles vieram com aquela ousadia toda e na metade da música uma tal de Naiara Azevedo invadiu e começou a cantar a versão dela, em resposta à letra original da música “Sou Foda”. E, obviamente, eu pensei que, se eu escrevi sobre os meninos, devo também escrever sobre ela. E durante 45 minutos eu ouvi a mesma música, para avaliar e fazer a minha interpretação. Vamos lá.
“Coitado, se acha muito macho, sou eu que te esculacho.” Se acha muito macho? Olha, a lacuna de qualidades se dá em quase todos os outros atributos, mas eles são, sim, muito machos. Eles têm coragem de dizer o que pensam, eles fazem o maior auê entre quatro paredes, eles se preocupam com o teu bem estar até onde vai a jurisdição onde pertencem, não mentem para você e nem fazem falsas promessas. E sim, eles vão encarar o seu marido, o seu amigo e o seu vizinho e dizer tudo aquilo na cara deles se for necessário, porque eles têm coragem. É da personalidade deles e faz parte do charme.  “Prepotente, arrogante, não serve para amante, talvez nem para ficante.” Não, não, espera aí: não serve para amante? Naiara, é SÓ para isso que eles servem e é SÓ isso que eles querem ser para você. Eles nunca te fizeram promessas de amor, eles nunca te pediram em casamento, eles não mentiram. Você gosta deles porque você gosta, porque eles fazem massagem no seu pé, tratam bem as suas amigas, são simpáticos e nunca vão falar mal da sua mãe. Achei que isso já estivesse claro.
“E não se esqueça de que, no final das contas quem vive de putaria leva fama de chifrudo.” Olha, sinceramente, esta foi a consideração mais contraditória que eu já ouvi no mundo do sertanejo – quer dizer, perde para “vamos pegar o primeiro avião, com destino à felicidade, e a felicidade, para mim, é você” -, mas não vou negar que, sob certo viés, ela tem fundamento. Quem vive de putaria, uma hora, fica com fama, fama de alguma coisa, e fica sozinho. Chifrudo depende muito das circunstâncias, mas se existe uma lei que funciona no mundo é “aqui se faz, aqui se paga”. Nessa vida ou na próxima, depende da sua evolução.
Mas aí, Naiara, quando você está quase recuperando o raciocínio você se perde de novo... concordo que rimar é legal, mas e a semântica? “Antes de eu me esquecer, só para você saber, todos, todos que provaram são melhores que você.” Mentira, Naiara! Eles são o Carlos e o Jader, lembra? Eles são melhores que o seu marido, que o seu amigo, o seu vizinho, todos os homens do seu círculo social e esse mérito você nunca vai conseguir tirar deles! E assim, concordo, melhores do que todos eles até podem não terem sido - não dizem por aí que sexo com amor é o melhor de todos? -, mas eu duvido que eles foram piores do que o seu colega do terceiro ano do colegial com quem você teve uma noite (muito) duvidosa depois do baile de formatura.
E assim... “Se acha o bicho, nem era tudo aquilo que contava para os amigos, eu sempre te defino desanimador”. Desanimador, Naiara? E é por isso que você se deu ao trabalho de escrever uma música para eles? Senti uma certa dor de cotovelo do começo ao fim da letra, aquela dor de cotovelo que todas nós sentimos uma vez na vida quando gostamos muito de alguém mas não somos correspondidas na mesma intensidade. Aí nós, mulheres, temos, inevitavelmente, a propensão de nos sentirmos usadas e descartadas quando, muitas vezes, nós aproveitamos o momento tanto – se não mais – quanto o Carlos e o Jader. Sei, reconheço e admito que cada caso é um caso, mas não dá para negar que de maneira geral as mulheres têm fama de  “usadas” e os homens de “quem pega e joga fora”, e eu não acho – mesmo - que seja, dentro do contexto de cada história, sempre assim. Alguns romances já nascem com prazo de validade vencido e somos orgulhosos demais para admitir. Se não fôssemos, talvez, sofreríamos muito menos, porque dói muito mais pelo orgulho do que pelo sentimento em si – que às vezes sequer existe. O importante é saber – sempre – respeitar a si mesmo, mas temos que aprender a fazer isso sem nos vitimizarmos o tempo inteiro. E o respeito por si mesmo não é parar de conversar com o Carlos e com o Jader e falar mal deles, é ficar com o Carlos e o Jader sem se iludir com as circunstâncias até o momento em que isso fizer bem, fizer feliz. Quando os poetas escrevem aqueles textos que a gente recebe por email dez vezes por dia, enviados por pessoas chatas que não têm o que fazer, e que dizem “a vida é curta”, é porque a vida é. Curta, imprevisível e passageira. Sim, é óbvio, não tem como ser feliz, despreocupado e intransigente o tempo inteiro, todos temos obrigações, mas, então, temos o dever e a missão de aproveitarmos cada instante até o momento em que as responsabilidades – conosco e com os outros – nos obrigue a tomar outras atitudes. A gente só sabe valorizar os momentos bons porque conhecemos a sensação de um momento ruim, e momentos são momentos. Eles vêm, mas eles vão. Alguns, felizmente, têm o poder de permanecer. Permanecer e preencher. Aproveite o que te faz bem, aprenda com e descarte o que não te faz. Como diz o poeta, “existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás”.

2 comentários:

  1. Matador o texto como sempre, Karis... Esculachou geral!!!! Assino embaixo!!!!

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  2. Estou pesquisando textos sobre a música Sou Foda, pois resolvi fazer uma análise do discurso a respeito da canção e da canção-resposta. E lendo seu texto, só posso dizer uma coisa: está horrível. Boa sorte como jornalista...

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