Eu acho que a maioria das pessoas vai dizer que foi uma grande ironia, e foi. Um dia depois de eu ter feito - com todo o meu amor e admiração - meu post sobre São Paulo, eu fui assaltada. Em São Paulo!
Saí do trabalho no sábado eram quase sete horas da noite, logo depois da Princesa Isabel ter assinado a Lei Áurea e libertado a mim a aos meus colegas. Decidi ir à pé encontrar meu Guardian Angel Junior, com quem eu moro, para então irmos juntos para casa. O Junior já dissertou durante anos acerca da necessidade de só andar com as cópias dos documentos na bolsa, de jamais falar no celular em ruas desertas quando eu estou sozinha, de não parecer uma paquita estrangeira quando passo por lugares mais críticos – para não dizer perigosos -, de sempre fechar a bolsa (é, eu esqueço deste detalhe, por mais útil que ele pareça ser) e muitas outras coisas do gênero. Em minha defesa, garanto a vocês que sábado eu não parecia uma paquita estrangeira, minhas olheiras estavam tão profundas que, se eu fosse o assaltante, eu teria pensado duas vezes antes de me abordar. Mas, evidentemente, enquanto eu estava passando por uma rua deserta, próxima a uma estação de metrô, eu estava com a bolsa aberta (e com todos os documentos nela), ouvindo gnomos tocando violino e sem fazer ideia das coisas que aconteciam ao meu redor. Ou seja, se o assaltante estava me seguindo, ele deve ter pensado: ou ela é autista, ou ela é minha colega de profissão.
Meu celular tocou e era uma ligação... interessante. Naquele momento esqueci todos os conselhos super importantes do Junior e atendi o celular, com uma expressão super animada de quem faz planos para um sábado promissor. Eu não sei se a minha capacidade de observação foi prejudicada na hora, porque eu não lembro – mesmo – de ter visto ou percebido alguém se aproximando de mim. Só sei que, mal eu disse um "alô" bem mixuruca que passava a falsa impressão do “nossa, eu não esperava sua ligação” e eu fui abordada por um homem que, sem dúvidas, tinha tanta olheira quanto eu. Aliás, pessoal, máscara de pepino faz milagres nessas horas, ok?
Naquele instante eu não me dei conta de que estava sendo assaltada. Infelizmente eu tenho esse lado paquita ingênua que acredita que jamais vai ser atingida pelas mazelas do mundo, como se Deus liberasse por dia uns dez guias espirituais para cuidar de mim na rua, na chuva e na fazenda. Então quando ele me olhou (aliás, a barba também merecia um upgrade, não só a região dos olhos, sem contar que uma pinça naquela monocelha também iria operar milagres), enquanto colocava a sua mão no meu braço para me segurar (ah, um banho sempre ajuda!) e disse: - Quieta, me passa o teu celular, rápido! - eu demorei alguns 5 segundos (e em um assalto 5 segundos podem ser determinantes) para entender que ele não queria me dar Oi, ele queria me roubar! Eu, contrariando todas as leis de um assalto, usei os 1,69 cm de coragem que existem em mim, olhei para ele pausadamente (quem sabe minhas olheiras também causassem efeito) e disse:
- Não.
E ele (no mínimo surpreso, pensando: mas olha que paquita cara de pau!) respondeu:
- Me dá aqui esse celular AGORA! Vamo, vamo, vamo! (Ai, odeio gente que fala errado... se bem que, se ele me dissesse: -Vamos, vamos, vamos!" eu teria enganchado no braço do cara e dito: -Sim, aonde?)
E eu:
- O meu celular não.
Então eu olhei para baixo e vi que talvez aquilo não fosse Pegadinha do Malandro, porque ele tinha uma faca. E que faca mais suja! Falta de consideração assaltar os outros e nem limpar o objeto de trabalho. Fato que se ele me cortasse eu iria pegar tétano e sabe-se lá mais o que. Aí olhei para o meu celular novinho, lindinho, branquinho, cheio de contatinhos, com todas as músicas da Adele que eu demorei 20 anos para aprender a passar e pensei: espero que um dia você me perdoe. Soltei a minha mão (que prendia o celular como se ele fosse a Pedra Filosofal do Harry Potter), ele o pegou e saiu correndo, levando com ele todos os meus programas pra aquela noite.
Foi neste momento e só neste momento - aliás, como às vezes eu demoro para interpretar certas coisas - que eu me dei conta que aquilo tinha sido um assalto. Aí o nervosismo chegou e eu comecei a rir descontroladamente. E a tremer descontroladamente. Entrei em um boteco na próxima esquina, pedi uma dose de 51 (tá, esse parte é mentira, mas pensando melhor teria sido uma boa) e fiquei rindo - entendi porque talvez o Junior me chame de Paquita - ao mesmo tempo que contava, entre sílabas cortadas e tremidas, que havia sido assaltada, e pedi para usar o telefone. E eles disseram: Assaltada? (No mínimo olharam para as minhas olheiras e pensaram: -Aham, Cláudia, senta lá), mas me emprestaram o telefone.
O resto do sábado envolveu bloquear meu número, recuperar meu número, flertar com o funcionário da TIM, furar fila, comprar aparelho novo, ouvir vários sermões do Junior e agradecer, muito, por ter alguém tão legal para poder contar nessas horas. Três horas e merecidas ribs on the barbie, Frech Fries e onion rings (Outback I love you) depois, estávamos em casa rindo dos acontecimentos, afinal, ele poderia ter levado a minha bolsa com a minha carteira e todos os meus documentos e cartões. Então não podemos dizer que eu não tive sorte, porque eu tive. Terceira temporada de Friends no DVD, brownie no forno e chá de boldo para evitar a congestão, meu sábado terminou de uma forma tão incrível quanto como se o assaltante não tivesse me escolhido entre todas as paquitas de SP e feito com que eu mudasse meus planos.
P.S. Agradecimento super especial à Gabriele Gransotto, primeira pessoa que soube do ocorrido e que, mesmo dois estados longe de mim, já agilizou soluções para o caso. Te amo, maridinha.
Vejam como a vida é sempre pautada por opções. Ainda em Bauru eu fiz um convite para que Karis jantasse comigo, logo após o término da palestra onde ela fez as imagens e as reportagens, aliás, muito bem feitas. Eram 18:30 h quando ela, após falar e falar neste celular virou para mim e disse, posso ir? A meta era sairmos todos juntos na Pajero da Dona da Faculdade que ia me deixar no hotel e já deixaria nossa "assaltada" na porta do metrô. Foi uma noite de perdas. Eu perdi minha companheira de jantar e ela perdeu o seu celular. Rimou. Quem perdeu mais? Com certeza eu, pois ela pode comprar um novo celular, porém eu acabei jantando sozinho e depois tive que ir ao Show do Milton Nascimento na Via Funchal, após um jantar solitário.
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