Faz umas três semanas que eu ouvi uma música muito interessante. Na verdade, não sei se interessante é o adjetivo mais apropriado, mas fiquei com a letra na cabeça e há alguns dias quero escrever sobre isso. A composição é tudo menos clássica, tudo menos sofisticada e tudo menos romântica. Mas é lírica. Lírica no sentido literal da palavra. Do dicionário, poesia lírica, atualmente, é o gênero em que o poeta expressa suas emoções, percepções e sentimentos pessoais. E esse cara – esse não, esses – me soaram tão sinceros que deve ser coisa da emoção, da percepção e do sentimento mesmo!
Não sei se foi o Carlos ou se foi o Jader, mas eu sei que, segundo eles mesmos, eles são “foda” e na cama “te esculacham”. Além de dar lição de moral, o esculachar também significa fazer algo perfeitamente, melhor do que qualquer pessoa. É neste segundo sentido que eles falam, e não para por aí! “Na sala ou no quarto, no beco ou no carro”, eles são sinistros! “Melhores do que o seu marido” – quem dirá então do seu amigo, dos seus vizinhos e de todos os homens do seu círculo social – “na cama são peritos (e, mais tarde, um perigo) avassaladores”. Em suma, eles esculacham o seu amante, o seu ficante e todo mundo com quem você já ficou. (Em tempo: a única mulher que consegue ter marido, amante e ficante é a Mulher Maravilha, pois ela tem poderes de teletransporte, maquiagem definitiva e cabelo à prova de tempestades).
De maneira alguma essa letra ofende, ou me ofende. Não pretendo criar uma discussão sobre as ousadias masculinas e o quanto elas podem representar um desrespeito às mulheres. Não sou a maior das feministas e tampouco uma soldada na Guerra dos Sexos. Até vejo sentido nesta reflexão, mas não é isso que essa letra desperta em mim. Eu quis escrever porque estou é muito admirada com a pretensão do cara em afirmar com tanta destreza e segurança que ele é tudo isso. Nunca vi ninguém com tanta confiança no próprio taco (sentidos literal e figurado!). Por mais que você se revolte com tamanha indelicadeza, você precisa admitir, ele também convenceu você! E, para muito além da peculiaridade da letra, a música tem um ritmo muito bom e é extremamente fácil para decorar os versos. Imagine para dançar! Quando você menos espera está lá, em alto e bom tom, dizendo que o perito avassalador acaba com você. E você gosta dele porque ele é simpático, é legal com as suas amigas, faz massagem no seu pé e nunca vai falar mal da sua mãe.
Ao invés de ferir meus princípios, ou a atuação do meu namorado imaginário na cama, essa música despertou em mim sensações diferentes. Gabriel García Márquez, sei que você vai querer me matar, mas existe literatura na composição mais ousada do mundo do sertanejo. A impressão que me dá é que cada mulher que escuta esta música pensa no quanto um romance avassalador é bem vindo às vezes, daqueles puramente físicos, sem qualquer outra responsabilidade ou atribuição que faça refletir, pensar ou ponderar. Todas nós esperamos um dia ter um tórrido caso de amor, seja proibido, seja escondido, seja liberado. Daqueles errados, imorais, inconseqüentes, libidinosos. Daqueles sem intelecto, sem conversa, sem DR. Sem DR! Daqueles que te fazem ficar corada no elevador, sorrir na frente do computador e viver com o arrepio no pescoço. Mas existe um tabu, existe uma repressão. Seja porque ele era um ficante da sua amiga, o melhor amigo do seu irmão, o primo (lindo) do seu ex-namorado ou o seu próprio primo (lindo também!). A verdade é que, quando nos deparamos com alguém com quem não podemos ficar pelos motivos mais tradicionais – e verdadeiros -, como amizade, fidelidade, consideração, prudência ou inteligência, mas por quem temos um desejo absurdo de estar junto, geralmente atribuiríamos a essa pessoa a capacidade de nos fazer sentir algo parecido com o que o Carlos e o Jader fazem a mulherada sentir por aí... por mais que talvez, em essência, não seja tudo isso. Não dizem que a ocasião faz o ladrão? Então, Carlos e Jader, independente do repertório sexual de vocês, obrigada por essa música tão divertida, que me faz literalmente rir na esteira – as pessoas na academia já repararam que há algo errado comigo em determinados momentos – no metrô e na rua. Sim, sim, vocês dividem o cartão de memória do meu celular com a Adele e às vezes escuto Sou Foda antes mesmo de One and Only e Rolling in the Deep, porque eu gosto de dar risada e imaginar o dia em que, talvez, eu cante isso de fato pensando em alguém.
"E você gosta dele porque ele é simpático, é legal com as suas amigas, faz massagem no seu pé e nunca vai falar mal da sua mãe."
ResponderExcluirhauhauhauahauah
Nunca imaginei que relacionaria "Sou foda" com o que estou vivendo no momento. Conseguisse fazer isso com esse post. Demais!!!!
Muito bom, Karis... Adorei a perspicácia e o humor! Avassaladores é isso aí. Seu texto merece o selo "Sou Foda" de qualidade! =D
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