quarta-feira, 13 de julho de 2011

Um dia de Bridget Jones

Quem já leu os livros que contam a saga da jornalista inglesa Bridget Jones, da escritora Helen Fielding, ou assistiu às duas adaptações das obras no cinema, sabe que quando se trata de Bridget o caos é garantido. E o meu dia, até agora, foi uma sucessão de acontecimentos que me fizeram sentir exatamente como ela, com a (enorme) diferença de que eu não estou em Londres, meu salário não é em libra esterlina e eu não sou namorada do Mark Darcy.
Quando o meu despertador tocou às 5h40 da manhã eu pensei que deveria ser uma brincadeira. Lembra de quando o Gugu apresentava um quadro no Domingo Legal em que ele e a produção iam às casas dos famosos acordar as pessoas? Sempre achei que um dia talvez isso fosse acontecer comigo, porque quando eu era pequena eu achava que seria famosa no futuro. Como ontem eu fiquei – imprudentemente – no sofá até quase uma da manhã vendo alguns episódios Friends que eu já devo saber de cor, na hora em que o meu organismo finalmente se deu em conta de que eu estava dormindo eu precisei acordar. Fui para o chuveiro ainda de olhos fechados e, quando eu abro a torneira, a primeira surpresa do dia: a água, que acabara na noite anterior, ainda não tinha voltado.  Como hoje eu supostamente teria que gravar uma entrevista no meu trabalho, era imprescindível que eu lavasse e escovasse os meus cabelos, a fim de me tornar um ser humano apresentável. Eu já estou super gripada e parecendo o Fofão. Cabelo feio não tem como, né? Na ausência de água, fui obrigada a inventar um rabo de cavalo super fashion e enchi tanto o meu cabelo de laquê que eu parecia um Power Ranger, de capacete. Tomei meu café enquanto assistia Tele Curso 2000, larguei mão de regime de novo enquanto comia uma generosa fatia de bolo de cenoura e saí de casa.
Até hoje, eu nunca tinha vindo ao meu trabalho em Alphaville sozinha, sem o meu colega Fernando. Eu não sei viver sem o Fernando. O Fernando organiza minha vida. É o Fernando quem sabe das coisas. Desci na Av. Rio Negro após duas horas e meia de trânsito de SP até aqui e resolvi confiar nos meus instintos geográficos – como se ao invés da aorta eu tivesse uma bússola grudada no coração - ao caminhar na direção que eu acreditava ser a o meu trabalho. Achei melhor buscar o endereço exato no Google (Alameda Madeira, 44) e ver a melhor forma de chegar aqui. Quando estamos de salto, todo passo é um esforço. E de lá eu saí, caminhando e cantando e seguindo a canção. Parei para pedir informações no caminho algumas vezes e depois de 25 minutos eu percebo que não existe prédio algum na Alameda Madeira, 44, parecido com o do meu trabalho. Pensei: será que eu esqueci como é a fachada do prédio? Será que o prédio mudou de ontem para hoje? Será que eu estou na cidade certa? Achei melhor ligar e falar com alguma colega, a Tati ou a Ana. A Tati e a Ana são muito focadas e objetivas. Essas coisas não acontecem com elas. Eu ligo, peço pela Tati... a Tati atende, eu explico o drama. A Tati fala:
- Karis, você sabe que o endereço no site é o antigo, né? Nós nos mudamos um pouco antes de você começar a trabalhar. E você está em uma direção completamente errada. E você esta de salto?
Na hora eu roguei uma praga silenciosa para todas as pessoas do planeta e comecei a voltar para a Av. Rio Negro quando, de repente, me dou em conta de que esqueci a minha agenda em algum dos locais onde parei para pedir informação. Eu não sou ninguém sem a minha agenda desde que decidi colocar todas as informações mais relevantes sobre mim e faturas que eu preciso pagar dentro dela. Foi preciso passar em todos os lugares e, evidentemente, ela estava no primeiro lugar onde havia parado antes, ou seja, no último lugar onde eu passei na volta. Tudo bem, life goes on.
Nessa altura, o rabo de cavalo fashion tinha virado um coque desalinhado, eu já estava com o meu sapato na mão, o terninho amarrado na alça da bolsa, a agenda pendurada em algum outro membro. Resolvi dar mais uma olhada no Google com a mão que estava livre, e como o sol estava forte, foi preciso aproximar muito o celular do meu rosto. E é claro que eu dei de cabeça em uma placa, que, além de aparecer do nada na minha frente, não continha nenhuma informação que me interessava. Todas as pessoas ao me redor apreciaram a cena sem moderação. Acho que a pancada me desnorteou. Eu não sei porque eu fiz isso exatamente, mas, mesmo na duvida, eu continuei andando na direção que me parecia correta. Karis, cai na real, São Paulo não é São Miguel do Oeste, distâncias aqui realmente significam alguma coisa. Depois de mais 10 minutos de caminhada, eu estava me sentindo a Dorothy do Mágico de Oz, quando ela tem o célebre insight “I dont think we are in Kansas anymore”. Cheguei a me perguntar se de tanto andar eu não havia atravessado o Rio e parado no Espírito Santo.
Mas logo na sequencia eu parei de considerar essas hipóteses. Segurei na mão de Deus e fui... impossível Alphaville ser desse tamanho. Acho que na verdade isso foi birra, teimosia. Ao invés de ficar com raiva de mim e da minha falta de planejamento, eu resolvi me iludir com o fato de que, mais cedo ou mais tarde, o prédio onde eu trabalho simplesmente apareceria. Liguei para a minha colega de novo, que já estava pensando que eu havia sido sequestrada e vendida no Tráfico Internacional de Mulheres, para avisá-la que eu estava quase lá. Mas, depois de mais quase vinte minutos, eu vi uma rodovia que leva à outra cidade. Parei. E pensei: “definitivamente nós não estamos no Kansas anymore”. Eu percebi o quanto eu estava cansada no momento em que resolvi ligar para um táxi me buscar (engraçado, né, na semana anterior meu chefe me deu um cartão de um taxista em Alphaville... será que ele previa algo do gênero?) e enquanto eu esperava decidi descansar a minha não beleza de hoje em um canteiro muito, mas muito confortável... Coloquei Adele (aos poucos estou superando Carlos e Jader) e fiquei lá, deitada, sem sapato, sem casaco, com a bolsa no colo. Eu sabia que eu parecia um mendigo, mas depois de tirar o sapato, bater a cabeça e perder a agenda, eu já havia perdido mesmo toda a minha dignidade.  Foi quando o segurança de uma construção das redondezas se aproxima delicadamente por trás – sem sacanagem, por favor - e fala:
 - Moça, você está bem?
Pausa. Moça, que moça? Eu sou um mendigo, me deixa em paz.
- Moça? Moça?
Ai tá bom, moça eu. Olhei para ele e disse que estava tudo ótimo, que eu só estava esperando um táxi. E ele, pouco convencido:
 - Bom, nesse caso, moça, você não pode ficar deitada aí, ok?  
Pensei em falar: Bom, nesse caso, moço, eu estou passando muito mal. Mas, como as regras não são feitas por ele, eu simplesmente recolhi meus objetos pessoais do chão, tentei achar minha dignidade mas ela não estava lá e fiquei de pé, no canteiro, parecendo uma militante do MST. Logo o Joel (taxista) chegou e levou ao trabalho.  É claro que ele me perguntou:
- Moça, como você veio parar aqui?
- Hummm, Joel, não quero falar sobre isso. Vamos falar sobre geografia... qual a distância entre SP e Espírito Santo?
Evidentemente que o meu chefe – sempre muito gentil em seus comentários acerca dos meus desvaneios – me deu o maior sermão do mundo, ao mesmo tempo que riu muito da minha cara e de todos os gravetos e folhas que ficaram presos no laquê do meu cabelo. Em um lugar tão grande quanto a região metropolitana de São Paulo, cada segundo é muito precioso. É lógico que eu acho sensacional a ideia de viver a vida com aventura, sem saber o que vai acontecer, deixar tudo rolar... mas isso se aplica apenas nos finais de semanas onde a minha única responsabilidade é chegar com vida em casa. Para quem trabalha ou estuda, tem horário, responsabilidades, tarefas e atribuições, planejamento e organização são imprescindíveis, essenciais. Saber acreditar na sorte não significa necessariamente viver sem se planejar, pensar sem refletir, fazer sem ponderar. :)

Um comentário:

  1. Acho que precisamos bolar o diário de Karis Cozer...that's my daughter!!!! Triste mesmo é não ser namorada de Mark Darcy!!!!!

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